Acabou o espaço para amadorismo na pecuária de corte

Por Maurício Palma Nogueira, engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária

Na Athenagro, temos falado há tempos que o mercado na pecuária de corte será dominado por sistemas mais produtivos. O que era uma percepção com base em casos, estudos e acompanhamento de resultados em clientes foi confirmado por estatísticas a partir das edições do Rally da Pecuária, expedição técnica pioneira com objetivo de conhecer a realidade da produção.

Entre as diversas edições, sempre buscando entrevistar produtores diferentes em todas as regiões, um número se repete com frequência: em média, cerca de 20% dos produtores mais tecnificados, de maior produtividade, respondiam por 50% a 60% do total vendido pelo público. E, ao contrário do que muitos sempre questionam, essa concentração nas vendas não é explicada pelo tamanho, mas sim pela produtividade. Os mais produtivos, que somam um quinto do total respondendo por mais da metade da produção, ocuparam cerca de 10% da área total dedicada à pecuária, número que se repetiu entre 2011 e 2024.

A conclusão é direta. Mesmo considerando um público acima da média, o efeito da concentração do mercado fica evidente. Desde então, em todas as palestras da Athenagro, o assunto virou tema central: o mercado está se concentrando e o produtor que não se adaptar passará por dificuldades.

Essa conclusão, no entanto, não é exclusividade da Athenagro. Outras empresas, consultores, toda a academia especializada e técnicos das indústrias de insumos vêm discutindo essa tendência há anos, alertando os produtores. Em algum momento, a pecuária passaria ser mais intolerante com os sistemas de menor aporte tecnológico, excluindo-os rapidamente do mercado. A grande dúvida sempre foi quando isso aconteceria?

Saber quando esse momento chegaria dependia de estatísticas confiáveis sobre a realidade da pecuária — especialmente o tamanho do rebanho, que pode variar em mais de 40 milhões de cabeças conforme a fonte dos dados. Quanto mais enxuto for o estoque de animais oriundos de sistemas de baixa produtividade, mais exigente será o mercado em termos de eficiência tecnológica.

O raciocínio é simples: Com a diminuição de animais das categorias intermediárias no rebanho, atender à demanda dependerá da agilidade dos sistemas em disponibilizar novos animais. E essa agilidade depende do pacote tecnológico, que envolve todas as dimensões técnicas de condução da propriedade: pastagens, fertilidade das matrizes, mortalidade, lotação, ganho de peso individual etc. Sendo assim, quando o mercado estiver precificando melhor, as propriedades mais preparadas tecnicamente tendem a ofertar animais de forma mais rápida que as demais, ajustando os preços aos sistemas de produção mais ágeis.

Quando as propriedades de menor aporte tecnológico estiverem prontas para atender a demanda, o mercado já estará sendo atendido de forma eficiente e, provavelmente, terá passado o momento de melhores preços. No caso da pecuária de corte, que é uma atividade de ciclo longo, o cenário pode ser mais preocupante tendo em vista o tempo entre o investimento em aumento no nível de tecnologia e o retorno com as receitas do modelo mais tecnificado.

Em parte, é o que aconteceu a partir de 2019. A ocorrência da peste suína africana na Ásia provocou um rápido aumento das exportações de carne bovina pelo Brasil, com a demanda aumentando rapidamente para animais jovens, com idade máxima próxima de 30 meses para abate. Imediatamente, os preços dos animais jovens, com boa terminação, aumentaram junto com a elevação dos preços dos bezerros. Logo em seguida, o mercado ainda foi impactado pelo início da pandemia, que acabou elevando ainda mais os preços das proteínas. No caso do Brasil, todo esse movimento coincidiu com a inflexão do ciclo pecuário, que passou da fase de baixa para a de alta nos preços.

Com isso, as cotações do boi gordo aumentaram 126% entre janeiro de 2019 e março de 2022, saindo da faixa dos R$150/@ para as R$344/@.

A alta registrada no período foi suficiente para estimular o mercado e promover grandes avanços no sistema de cria de bezerros, seja nas fazendas especializadas ou nas fazendas de ciclo completo. A oferta de animais aumentou significativamente, fazendo com que o mercado registrasse o maior período de baixa nos preços nominais, desde que o Real foi consolidado a partir de meados dos anos 1990.

Observe os movimentos de preços nas figuras 1 e 2.

Figura 1.

Evolução das cotações nominais da arroba do boi gordo e machos desmamados entre janeiro de 2019 e outubro de 2025.

Figura 2.

Variações nos preços das categorias de machos entre os momentos de alta e baixa, seguidos por estabilidade no período de janeiro de 2019 a outubro de 2025.

Os produtores que surfaram no período de alta nos preços eram aqueles que já vinham preparados e tinham capacidade de resposta rápida, ofertando bezerros e animais terminados no período de mercado valorizado.

Grande parte dos que decidiram investir em produtividade, estimulados pela alta nas cotações, acabaram vendendo no período de baixa, situação que dificulta recuperar os investimentos em aumento de produtividade.

E no atual momento, o mercado vive um período de dúvidas depois da alta nas cotações, registrada entre junho e novembro de 2024, e oscilações entre altas e baixas desde então.

As análises de mercado se dividem entre quem acredita que ainda há muito o que subir nas cotações (maioria) e quem acredita em alta mais moderada (minoria).

A primeira leitura é embasada nos históricos do ciclo pecuário, enquanto a segunda leitura, mais conservadora, considera um aumento médio nos indicadores de produtividade. Evidentemente que ambos os cenários podem ser fortemente alterados pelo efeito da demanda.

Até pouco tempo atrás, era possível a qualquer pecuarista partir da baixa tecnologia para aportes crescentes até atingir níveis elevados de produtividade. Hoje ficou mais difícil pelo fato de competirem com a oferta dos sistemas mais produtivos, geridos por produtores que perceberam antecipadamente a importância de ganhar escala por área. Esses sistemas responderão mais rapidamente nos momentos de alta nos preços, conforme mencionado e, da mesma forma, continuarão ofertando nos períodos de preços mais baixos, pois seu modelo de negócio é focado na produtividade e não na oportunidade de vender mais ou menos de acordo com as oscilações nos preços.

Aos que estão mais atrasados, o aporte de tecnologia demandará maior rigor gerencial, visto que será mais difícil colher ganhos em momentos mais favoráveis. E a tendência, ao longo dos anos, é que as margens médias, por unidade produzida (quilogramas, arrobas ou animais) se reduzam, elevando o risco do negócio, mesmo quando os lucros forem favoráveis.

O investimento médio demandado para o aporte tecnológico na pecuária é entre R$1.000,00 a R$1.400,00 para cada arroba que se deseja produzir a mais por hectare. E, nesse momento, há outro fator limitante para o investimento, que são os juros básicos da economia, com a taxa Selic elevada, dificultando a atratividade de qualquer investimento em produção.

Os pecuaristas de baixa produtividade precisam encarar uma decisão difícil pela frente. Há caixa disponível para investir?  É possível obter créditos bancários para completar os recursos que serão demandados? O projeto de intensificação na pecuária é melhor do que manter o dinheiro no banco ou pagar os empréstimos?  A equipe da propriedade, do nível estratégico ao operacional, é capaz de conduzir um projeto de intensificação? Os proprietários estão dispostos a conhecer e usar, de forma eficiente, as ferramentas de proteção de preços?

O que era mais simples, até um passado recente, ficou bem mais complexo. É possível e ainda vale a pena, mas atualmente o investimento em intensificação da pecuária exige muito mais do empreendedor.

Essa realidade só mudará se houver uma radical mudança na conjuntura econômica do país, causada por algum acontecimento interno ou externo. Em um ambiente normal, o cenário é esse: a pecuária estará cada vez mais parecida com a agricultura em termos de resultados.

E à medida que o tempo passa, a tendência é que o cenário torne o investimento cada vez mais restrito ao profissionalismo gerencial na atividade.

Pelas características de ocupação do interior do país, somadas ao ciclo logo de produção na pecuária, o espaço para a atividade conduzida com baixos critérios técnicos se prolongou por tempo maior do que o observado para outras atividades agrícolas. O rigor com a profissionalização na produção pecuária foi mais lento, mas chegou.

A realidade atual passou a exigir muito mais dos pecuaristas em relação ao exigido há alguns anos. Não há mais espaço para amadorismo.

Aquela pecuária de baixo desempenho, conduzida por produtores alienados à necessidade de aporte tecnológico, só existe em duas situações:

– nas propriedades em processo de exclusão, independentemente do tamanho

– em discursos das ONGs ou de entusiastas à favor de uma transformação que já aconteceu.

Em ambos os casos, perderam o timming.

Fonte: Artigo “Acabou o Espaço para o Amadorismo na Pecuária de Corte” foi publicado por Maurício Palma Nogueira na edição de outubro do Informativo Pecuária de Precisão da Coan Consultoria

Compartilhe este artigo

Deixe um comentário