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Pastagens: conclusões erradas a partir de dados incorretos

Informações incorretas reforçam o preconceito em relação à produção pecuária

Causa preocupação o fato do MapBiomas ser a base de dados mais usada em estudos relacionados à sustentabilidade. A metodologia não está validada do ponto de vista científico.

Nem sequer a proposta dessa metodologia parece estar definida, visto que há uma constante mudança dos números em poucos meses, entre uma versão e outra.

 

 

Ainda assim, os resultados têm suportado conclusões e modelagens em relação ao uso da terra no Brasil. Embasam decisões, opinião pública e conclusões conduzidas por outros pesquisadores e instituições internacionais. Mesmo sem passar pelo rigoroso filtro de validação científica, o MapBiomas está consolidado e exerce relevante influência nos materiais trabalhados. 

Essa consolidação contou com a máquina de comunicação das ONGs ambientais e da imprensa.

O ambiente polarizado e o excesso de informações disponíveis, somados à dificuldade de checagem das fontes de dados, contribuem nesse processo. Não é o rigor e a qualidade que valem, mas sim quem se comunica melhor, preferencialmente dentro de uma narrativa alimentada pelos preconceitos de quem “comprará” a informação.

Lentamente, o MapBiomas vem tomando o espaço de dados oficiais que, apesar de coletados por metodologias formuladas e implementadas ao longo de décadas, acabam sendo sumariamente ignorados. É como se não existissem.

Quando questionados em relação às metodologias adotadas, alguns dos responsáveis respondem até com agressividade. Quando muito, há o silêncio diante da solicitação de algum esclarecimento ou mesmo indicações de artigos científicos que justifiquem suas premissas. Investir em um debate com os coordenadores do projeto poderá ser entendido como corporativismo ruralista, ainda sob o risco de sua imagem entrar na linha de tiro da máquina de comunicação.

Os resultados e conclusões são apresentados em ambientes amistosos, onde profissionais da cadeia produtiva ou pesquisadores que os questionam acabam não tendo voz. A blindagem é garantida pela teórica contradição entre produção e proteção ambiental.

Nesse formato, a opinião de alguma celebridade, totalmente leiga, acaba tendo mais peso do que a opinião de pesquisadores especializados no tema. É a antítese do que se espera do processo de produção científica. É a ciência que não tolera ser contrariada e não depende de comprovação, pois basta a autoridade curricular dos envolvidos.

Para explicar como políticas públicas podem ser mal formuladas a partir de dados incorretos, nos ateremos à diferença entre a série histórica do MapBiomas e os dados censitários do IBGE, conforme artigo “Pastagens: dados que estão sendo divulgados são confiáveis?”, publicado no dia 4 de junho de 2020.

Os dados relativos às pastagens começam no censo de 1940, que identificou 88 milhões de hectares no Brasil. A partir de então, a área foi aumentando de um levantamento ao outro, atingindo o ápice em 1985, com 179 milhões de hectares identificados. Em 1995, a área permaneceu praticamente a mesma, com quase 2 milhões de hectares a menos.

Em 2006, a nova pesquisa censitária identificou uma área de 160 milhões de hectares, já indicando queda na área de pastagens. Essa edição, no entanto, gerou muitas dúvidas em relação ao tamanho da área e ao total do rebanho. A origem dessas dúvidas era o próprio IBGE, a partir dos dados da pesquisa pecuária municipal. O mesmo problema se repetiria no censo de 2017. Dessa vez, no entanto, os técnicos do IBGE conseguiram explicar satisfatoriamente os motivos dessa diferença entre os dados. Essas explicações, no entanto, não são assuntos desse artigo.

Importante entender que, em relação ao que se tem números oficiais no país, há uma evidente expansão da área de pastagens que se estende até o início da década de 1990, quando começa a recuar. A inflexão na curva de evolução da área ocorre no momento que mudanças estruturais significativas ocorriam no país.

 

 

A desregulamentação do mercado durante o governo Collor, seguida da implementação do plano Real conduzida pelo então ministro Fernando Henrique Cardoso, no governo Itamar Franco, formaram as bases que impulsionariam a produtividade da agropecuária brasileira. A pecuária não ficou de fora, embora o ritmo seja mais lento em relação às demais atividades, por razões que também não serão discutidas neste texto.

Os dados censitários foram construídos durante décadas e mostram uma tendência lógica entre um levantamento e outro, coerente com os indicadores macroeconômicos, técnicos e com o portfólio de soluções disponível para a produção.

O MapBiomas, além de desconsiderar toda a base acumulada pela instituição oficial de estatística e geografia do país, desloca para a década seguinte essa inflexão na evolução da área de pasto. 

 

 

Embora pareça um mero detalhe sem relevância, essa mudança altera significativamente o diagnóstico da relação entre a pecuária e a conservação ambiental.

Os fatos, identificados pelo IBGE ao longo dos anos, permitem concluir que a estabilidade na economia alterou a principal variável de atratividade econômica. Em época de inflação alta, em um ambiente totalmente imprevisível, os ganhos eram garantidos pela expansão patrimonial e pela manutenção de estoques elevados. Valia muito a pena comprar terra e investir em rebanho, pois a própria inflação garantiria os ganhos.

Com o advento do plano Real, lentamente os empresários foram se adaptando aos novos paradigmas. Entenderam que a rentabilidade seria garantida pela produtividade e pelo fluxo financeiro em relação aos ativos disponíveis. A regra passou a ser o giro do capital e a otimização dos bens de produção.

Na pecuária, essa mudança demorou a ser percebida pela própria longevidade do ciclo de produção.  

Pela inflexão apresentada na série histórica do MapBiomas, as análises podem levar à falsa conclusão de que o avanço das pastagens sobre as áreas de fronteira tenha sido contido pela força da lei, em 2008, época em que as medidas de proteção ambiental começam a ser implementadas com maior rigor, de acordo com o Código Florestal.

Aqui cabem duas observações importantes para que este texto não seja mal interpretado. A primeira delas é com relação à importância da legislação. Apesar de não ser responsável em frear a expansão das áreas de pastagens, os avanços que vieram junto com o código florestal são de extrema importância para garantir as regras e separar oportunistas de produtores.

Em hipótese alguma, portanto, estamos sugerindo que a legislação não seja importante. Estamos apenas ajustando a importância dos acontecimentos aos fatos.

A segunda observação é com relação ao avanço das áreas de pastagens. O avanço nunca parou. O desmatamento continua ocorrendo e as áreas desmatadas continuam se transformando em pastagens. O que ocorre é que a área de pastagem perdida, tenha sido ela repassada para outras atividades ou iniciado o processo de regeneração, passou a ser maior do que o total desmatado.

E o mais importante. Quem desmata, em sua maioria, não são os produtores, mas sim agentes que ganham a vida com operações ilegais. Eles transformam a área em pastagens pela facilidade de esconder o dinheiro através da atividade pecuária. O combustível que mantém essa atividade em operação é a informalidade, que dá vazão à produtos de origem ilícita, sejam esses produtos originados pelos madeireiros, pelo garimpo ou pelos pastos recentemente implementados.

Por tradição - e por desconhecimento - a pecuária avançou sobre fronteiras por algum tempo após a estabilização da economia. Há alguns anos ainda existiam técnicos de ponta no Brasil que acreditavam que tratar pastagens como agricultura seria inviável. Ainda acreditavam que a produção de bezerros, por exemplo, seria sempre dependente de desmatamento. Consistiam em paradigmas que foram formados durante gerações, mas bastou apenas uma década para que fossem totalmente quebrados e substituídos pelo paradigma da produtividade.

A pastagem plantada nessas áreas ilegais, assim como a pecuária que vem junto com ela, não é a causa do desmatamento, mas sim consequência. E sempre foi assim. Hoje é consequência de uma operação ilegal; enquanto nas décadas passadas era consequência de uma operação imobiliária.

Em termos de recomendações para políticas públicas, as diferenças entre ambas as séries históricas levam a conclusões muito diferentes. E embasarão decisões igualmente diferentes.

A primeira, com base nos dados oficiais do IBGE, permite entender que o vetor da profissionalização pecuária é econômico, desencadeado pela estabilidade da moeda e pela modernização do mercado. Nesse caso, os dados estatísticos do censo são reforçados por diversas outras bases de informações, dentre as quais podemos citar peso médio e idade de abate, relações de troca entre boi e bezerro, demanda por alimentos concentrados, crescimento de quantidade de confinamentos, mercado de insumos para pastagens, maquinários, sêmen etc.

Até mesmo as primeiras conclusões do MapBiomas confirmam os indicadores que explicam a dinâmica da curva proporcionada pela interpretação dos dados censitários. É através do cruzamento de informações de diversas fontes que a Athenagro  constrói a evolução anual da área de pastagens, conforme explicado no artigo “A evolução da área de pastagens no Brasil”, publicado em abril de 2019.

A segunda série histórica, com base nos dados do MapBiomas, leva à conclusão de que a inflexão na curva de expansão das pastagens tenha sido conquistada pela força da lei. Com isso, é possível assumir que a pecuária continuaria avançando sobre as florestas, representando a causa do desmatamento, e não a consequência.

Essa visão deturpa as ações que realmente poderiam contribuir com a proteção ambiental. Ao invés de possibilitar a compreensão de que a pecuária organizada é a principal interessada na legalidade, a conclusão sugere medidas que busquem reduzir a atratividade financeira da produção. Nesse sentido, toda a pressão ambiental é direcionada justamente aos players que estão operando na legalidade, sejam frigoríficos ou produtores.

O resultado é o inverso do esperado.

Ao agir nos que operam na legalidade, o ambiente de negócio passa a ser mais favorável aos ilegais, aumentando a sua competividade. Estes, por sua vez, passam a representar uma parcela maior do mercado, movimentando rebanhos e, consequentemente, áreas cada vez mais representativas.

Uma nova ironia. Grande parte das medidas apresentadas em nome da proteção ambiental acabaram surtindo o efeito inverso. É caso da pressão que ONGs, junto com o Ministério Público Federal, exerceram sobre os frigoríficos há alguns anos. Se os dados forem analisados com cautela, dois efeitos negativos estão relacionados a essas ações.

O primeiro é o aumento do abate informal (sonegado ou clandestino) que ocorreu durante o período de maior pressão. O segundo foi o aumento da concentração dos frigoríficos que operam na formalidade. Ao contrário do que muitos produtores acreditam, a margem da atividade frigorífica é muito baixa. Qualquer variável que piore essas margens tende a impactar os resultados dificultando, ou até inviabilizando, a operação. Quanto mais baixas são as margens de uma atividade, mais concentrada ela tende a ficar.

Os dois efeitos foram observados depois do aumento dessa pressão sobre os frigoríficos. Sem um estudo mais bem elaborado, no entanto, não é possível quantificar exatamente o impacto dessa variável em ambos os efeitos, embora já estejam comprovados.

Mas não é preciso aprofundar tanto na análise para perceber o quanto as duas séries levam a conclusões diferentes. Basta acompanhar os recentes estudos e artigos que usam o Mapbiomas como base.

Invariavelmente recomendam medidas de natureza que venham a dificultar, burocratizar ou até mesmo taxar ainda mais a produção pecuária. Essas medidas aparecem com frequência em diversos textos, tanto os mais bem elaborados como os meramente opinativos.

Ou acreditamos que há uma conspiração trabalhando a favor de grupos engajados, ou aceitamos a conclusão mais simples e provável: os dados, que se tornaram referência para tais estudos, estão completamente errados e induzindo a erros ainda maiores pelo efeito cascata.

O equívoco leva também a políticas de efeito negativo ainda mais impactantes quando se analisa o lado social da sustentabilidade. A realidade da evolução no campo, identificada pelo IBGE, nos permite concluir que a adoção tecnológica com o objetivo de obter ganhos financeiros irá suplantar toda a demanda tecnológica para garantir as demandas ambientais. A ponta mais eficiente em implementar tecnologia será cada vez mais representativa na comercialização, no estoque do rebanho e em terras, num futuro próximo.

Os produtores de diferentes tamanhos que não conseguirem se adequar serão expulsos da atividade. Como a maioria dos produtores brasileiros são pequenos, o impacto será muito maior entre eles, criando um caos social no campo. É esse o grande desafio da sustentabilidade na produção pecuária no Brasil, não o ambiental.

A questão do desmatamento ilegal é um desafio de Estado, caso de polícia. É um problema que não será resolvido nos frigoríficos e muito menos nas fazendas.

Os nove anos de dados a campo, levantados pelo Rally da Pecuária, nos permitem dimensionar o problema. Se a pecuária brasileira operasse com a média daquele púbico, seriam necessários apenas 60 milhões de hectares para manter a atual produção de carne. Parece apenas uma simples curiosidade teórica, mas essa informação comprova a verdadeira natureza do desafio pela frente. Por estarem na dianteira, esse público representa a tendência do que virá nos próximos anos.

A preocupação não é se a pecuária vai conseguir ceder áreas para outras atividades. A preocupação é o que será feito para incluir os donos das terras que irão sobrar, um problema cuja solução passa também por toda a questão fundiária.

A única explicação para que as pessoas, estudiosas do tema, ainda não tenham se atentado para essa realidade é o fato de estarem se baseando em informações erradas que reforçam o preconceito existente em relação à produção pecuária.

Aumentar o rigor e a seriedade com que se trabalha com dados relacionados à área é outro desafio, que não deixa de ser uma exigência da própria sustentabilidade.

Por Maurício Palma Nogueira, engenheiro agrônomo e diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária

 

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Fonte da Notícia
Athenagro