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China, o outro lado do sucesso da carne brasileira

A parceria comercial com a China acelerou o desenvolvimento do setor de carne bovina. Enquanto os chineses demandam, o Brasil inova, se desenvolve, melhora. Juntos, os dois países vão quebrando um velho paradigma, de que o consumo de carne bovina seja inacessível aos mais pobres e que, no futuro, também será inacessível à classe média.

 

Por: Maurício Palma Nogueira *

A polarização do cenário político, aquecida pelas incertezas diante da pandemia, transformou a China em alvo de teorias conspiratórias que compõem a enxurrada de barbaridades difundidas nas redes sociais.

No dia 24, enviei um artigo como sugestão para a editoria do Jornal Valor Econômico. No dia seguinte, o jornal trazia o artigo “Ao atacar chineses, Brasil pode alvejar setor central para a saída da recessão”, assinado pelo Marcos Sawaya Jank, professor de agronegócio global do Insper e titular da Cátedra Luiz de Queiroz da Esalq-USP.

Como as argumentações estavam muito parecidas, optamos por retirar a oferta do artigo, alterar um pouco o conteúdo e adaptar o foco para carne bovina, visando complementar o texto do Marcos Jank, o qual recomendamos fortemente a leitura através do link que será disponibilizado ao final.

A China, com 1,4 bilhão de habitantes, responde por 18% da população mundial. O país vive mudanças significativas. Em 20 anos, o produto interno bruto (PIB) per capita aumentou 10,5 vezes, saindo de pouco mais de US$950,00 para os atuais US$10.100,00. Trata-se de uma máquina em crescimento, urbanização, desenvolvimento de infraestrutura, produção, comércio, consumo e serviços. Por mais organizados e competentes que sejam, controlar tudo e garantir a qualidade não é tarefa fácil, especialmente quando envolve biologia, com a presença de microrganismos, combinações e mutações ainda desconhecidas pela ciência.

Pela quantidade de gente no país e pelo dinamismo das mudanças, nada mais natural que doenças acabem surgindo justamente por lá, como o atual caso do Covid-19 e outras gripes e zoonoses conhecidas, como a peste suína africana e gripe aviária. Se tem um lugar no mundo que está sendo realmente desafiado, esse lugar é a China.  

Sendo os chineses parceiros comerciais relevantes para o Brasil, é essencial manter uma boa relação com eles.

É de se admirar que políticos do alto escalão embarquem em teorias conspiratórias, gerando constrangimentos desnecessários e atrapalhando os que estão comprometidos e focados em manter a economia funcionando para que a recuperação ocorra o mais breve possível.

A vantagem dessa relação com os chineses não se restringe apenas aos exportadores. Se há carne a preços acessíveis, parte disso pode ser atribuída ao faturamento obtido com as vendas externas. E a China compra 35% de toda a carne bovina exportada pelo Brasil. Isso possibilitou, inclusive, todo o desenvolvimento, modernização e oferta garantida de carne para consumo interno.

Mas nem sempre foi assim.

Em 2000, os chineses importavam pouco menos de 10 mil toneladas de carne bovina, sendo que apenas 1,5 mil toneladas eram compradas no Brasil. Em 2020 comprarão 1,3 milhão de toneladas, 145 vezes a mais do que compravam 20 anos antes. Para atender a esse apetite, os brasileiros passaram a enviar 650 mil toneladas em 2019, respondendo por 50% do total comprado por eles.  

A expansão das compras chinesas coincide com a consolidação do Brasil como principal exportador do mundo.

Até o início dessa década, Brasil, Estados Unidos, Austrália e Índia competiam pelo primeiro lugar no ranking internacional. Para 2020, as projeções anteriores à pandemia indicavam que o total exportado pelo Brasil atingiria 2,8 milhões de toneladas de carne bovina, em equivalentes carcaça. A quantidade, se confirmada, será maior do que a soma das exportações dos Estados Unidos e Austrália que ocupam, respectivamente, segundo e terceiro lugares no ranking.

Mais surpreendente ainda é que o Brasil exporta apenas 23% do total de carne bovina produzida. Considerando exclusivamente a produção com fiscalização federal (SIF), realizada em estabelecimentos que podem se habilitar para exportações, o Brasil enviou 40% do total produzido em 2019.

Esse sucesso só foi possível pela produtividade. Em uma década, a produção de carne bovina aumentou 20%, com o rebanho apenas 0,6% maior. A área de pasto reduziu 8,4% no período, ocupando uma área 14,8 milhões de hectares menor. Em 2020 a pecuária brasileira está operando com produtividade 31% maior do que em 2011. As exportações aumentaram 90% no período.

A parceria comercial com a China acelerou o desenvolvimento do setor de carne bovina. Enquanto os chineses demandam, o Brasil inova, se desenvolve, melhora.  Juntos, os dois países vão quebrando um velho paradigma, de que o consumo de carne bovina seja inacessível aos mais pobres e que, no futuro, também será inacessível à classe média.

É o domínio técnico dos brasileiros na produção tropical que permite, mais uma vez, desmentir Thomas Malthus e seus novos seguidores apoiados no radicalismo ambiental, presos a uma teoria enunciada dois séculos atrás.

No futuro próximo, é a tecnologia que possibilitará impedir que as populações mais carentes avancem sobre a fauna à procura de carnes exóticas de animais abatidos sem nenhuma qualidade sanitária. É daí, da fauna e não da flora, que vem o principal risco de entrarmos em contato com novos patógenos ou vírus, como este que colocou o mundo todo de joelhos.

Não serão leis e nem discursos de celebridades dizendo que o mundo precisa mudar, mas sim a tecnologia que mitigará esse tipo de consumo. E hoje essa tecnologia, replicável em algumas partes do mundo, é dominada pelos brasileiros.

Se todas as áreas de pastagens tropicais não desérticas do mundo produzissem com o desempenho de fazendas que estão entre as 20% mais produtivas da amostra visitada pelo Rally da Pecuária, a produção de carne bovina seria suficiente para elevar o consumo mundial de 9,5 para 42 kg por habitante por ano. Seria um consumo igual ao dos brasileiros. Com o nível tecnológico das fazendas ainda mais produtivas, esse consumo mundial poderia ser garantido apenas com a atual área de pastagens do Brasil.  O cálculo hipotético dimensiona o quanto pode ser produzido sem que seja necessário avançar sobre novas fronteiras.

Mesmo com toda a importância do Brasil como fornecedor, enganam-se aqueles que acham que a dependência da China os torna tolerantes a qualquer tipo de insultos. Em qualquer mercado, a posição mais forte sempre é a de quem compra. Não vale a pena arriscar.

*Engenheiro agrônomo e diretor da Athenagro

Link do “Ao atacar chineses, Brasil pode alvejar setor central para a saída da recessão, Marcos Jank, 24/04/2020 - https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2020/04/24/marcos-sawaya-jank-ao-atacar-chineses-brasil-pode-alvejar-setor-central-para-a-saida-da-recessao.ghtml

 

Fonte da Notícia
Athenagro