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Paraná sem vacinação: benefícios compensam os riscos?

Com toda a crise da peste suína na China, é esperado um rearranjo em todos os players do mercado global de carne suína. Será que interessa ao Paraná aumentar os riscos sanitários antecipando isoladamente o cronograma de retirada da vacinação contra aftosa?

No último dia 10, a Athenagro e as Sociedades Rurais do Estado do Paraná, representada por Londrina e Maringá, e também a Indústria Frigorífica da Bovinocultura entregaram ao governador do Estado o relatório sobre os riscos da antecipação da retirada da vacina no Paraná. A reunião foi realizada na sede da Sociedade Rural de Londrina, durante a ExpoLondrina, quando o Governador do Estado transferiu o gabinete para o local. Estiveram presentes diversos deputados e secretários do governo.

 

Tendo em vista o tempo restrito, foram apresentados apenas os pontos mais críticos do levantamento feito sob encomenda pelas Sociedades Rurais do Paraná, a Indústria Frigorífica da Bovinocultura e produtores.

 

Destacamos o risco que o Estado do Paraná corre em manter um cronograma que grande parte das lideranças setoriais do país já está considerando impraticável. A preocupação das lideranças reflete o que está no campo.  Apenas cerca de 7% dos técnicos entrevistados em todos os estados de importância pecuária consideram viável retirar a vacina no prazo estipulado. No Paraná, essa porcentagem cai para 2%, mostrando que os profissionais do agro temem o risco de um foco de aftosa no país. Os dados foram coletados em pesquisas conduzidas pelo Rally da Pecuária entre os anos de 2017 e 2018, somando 2 mil entrevistas.

 

Durante a reunião, o Governador do Paraná, Ratinho Jr, deixou claro que decidirá em favor do Estado, com o objetivo de maximizar os ganhos em faturamento, empregos e desenvolvimento social. Disse isso para justificar a ponderação que fará entre os benefícios e os riscos da retirada da vacina.

 

Os benefícios, em teoria, seriam colhidos pela suinocultura, enquanto os riscos seriam todos da bovinocultura.

 

A tese do benefício, no entanto, baseia-se na premissa que haja retorno econômico com as exportações de carne suína, caso o estado deixe de vacinar. É com base nessa premissa que alguns estudos foram feitos para defender a viabilidade econômica de retirada da vacinação.

 

No entanto, trata-se de uma expectativa não confirmada pelo Estado vizinho. Santa Catarina atingiu o status livre de aftosa sem vacinação em 2007. Mesmo sendo o Estado de maior produção e exportações de carne suína no Brasil, apenas 6% do total exportado seguiu para mercados considerados mais restritivos em relação à vacinação, como Estados Unidos, Japão e Singapura. Interessante que em 2006, antes de atingir o status, 7% do total exportado por Santa Catarina atingiu os mercados restritivos.

 

A carne suína paranaense também acessou mercados restritivos. Em 2018, o Paraná exportou 18,6 mil toneladas métricas de carne suína para Singapura, equivalente a 17% do total exportado pelo Estado.  No mesmo período, Santa Catarina exportou 13,6 mil toneladas para o mesmo mercado, ou 4% do total. O restante exportado por Santa Catarina aos mercados restritivos soma 6,4 mil toneladas em 2018, destinadas ao Japão e Estados Unidos.

 

Em outras palavras, mesmo sendo responsável por 51,4% de todas as exportações de carne suína em 2018, Santa Catarina enviou 19,9 mil toneladas aos mercados considerados mais restritivos. O Paraná, que respondeu por apenas 16,8% das exportações brasileiras de carne suína, enviou 18,7 mil toneladas nos mercados restritivos. É conclusivo que a diferença do status não representa vantagem competitiva alguma para atender tais mercados. Trata-se, evidentemente, de um diferencial, um selo que pode ser usado nas negociações. Mas as decisões de compra não serão embasadas simplesmente no status com relação à vacinação.

 

A análise das séries históricas de volume e preços de exportações e mercado interno, tanto para carne suína como para a carne bovina, são mais contundentes ainda. Comparando o desempenho do Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina, não há sinais de que Santa Catarina esteja ganhando espaço ou benefícios com relação às exportações ou valorização do mercado interno. Todas as observações que possam ser feitas em comportamento dos preços são pontuais e relacionadas à oferta e demanda. É o exemplo do valor da carne bovina com osso no Estado. É valorizada porque não concorre com a carne com osso de outros Estados.

 

Não há dúvidas que a retirada precipitada das campanhas de vacinação do Paraná represente mais riscos do que benefícios, para ambas as carnes. A expectativa de benefícios não se confirmou em Santa Catarina, nem mesmo nos momentos mais complicados para a suinocultura brasileira.

 

E o cenário atual é ainda contundente. Nesse momento, com toda a crise da peste suína na China e vizinhos, é esperado um rearranjo em todos os players do mercado global de carne suína. A oportunidade para o Brasil é inquestionável. Será que interessa ao Paraná aumentar os riscos sanitários em um momento tão importante para a consolidação dos mercados? A própria dificuldade em conter o avanço da peste suína em pequenos produtores na China não seria motivo de aprendizado para o Brasil se preparar melhor para implementar adequadamente todas as etapas previstas no Plano Nacional de Erradicação de Febre Aftosa (PNEFA)?

 

O governador foi muito transparente e direto em dizer que vai tomar a melhor decisão para o Estado. Inclusive, algo raro na política, mesmo dentro da casa dos pecuaristas disse que tomaria uma decisão que poderia não agradar o setor. Está certo o governador em defender os interesses do Estado e não de determinados setores. No entanto, ele precisa se certificar de que suas decisões estão embasadas também em informações certas, em análises que consideram premissas reais de mercado e não apenas expectativas ou suposições.

 

Hoje está muito claro que uma decisão do Paraná, isolada dos demais Estados, traria muito mais riscos do que supostos benefícios.