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A tecnificação da pecuária – ganho econômico e ambiental

Maurício Palma Nogueira  – Carolina Magnabosco Ribeiro

A pecuária está aumentando o ritmo de intensificação. Ano a ano pesquisadores e empresas de consultoria divulgam mais dados que confirmam, e ajudam a compreender, o processo.

Sustentabilidade é assunto para todas as rodas. A pecuária, por razões infundadas, é considerada a vilã.

No início de 2015, com a iminente falta de água para passar o ano em algumas das principais metrópoles do sudeste, sensacionalistas comprometidos apenas com a auto promoção e com agendas inquisidoras contra o setor, voltaram a culpar a agropecuária pela falta d´água. As pastagens, como sempre, são as mais alvejadas. Por mais infantis que sejam as premissas destes grupos de interesse, o setor produtivo sofre relevante impacto. Todas as empresas de insumos, os frigoríficos, o setor de serviços, universidades e centros de pesquisa precisam dedicar recursos e tempo para participar de um debate para rebater argumentos não são embasados.

E qualquer besteira dita sem embasamento, acaba sendo respondida de forma embasada e responsável pelo setor agropecuário.

Tem quem ache que estamos errados em responder. Pode ser, mas qual seria o risco no longo prazo da falta de esclarecimento e de maiores informações para a sociedade leiga? O ideal mesmo seria se o setor se organizasse e “ensinasse” a sociedade nos moldes do desfecho do excelente romance da escritora Ayn Rand. Escrito em 1957, “A Revolta de Atlas” conta a história de um gênio chamado John Galt que resolve parar o mundo. Como? Convencendo a parcela mais produtiva e inventiva da sociedade a desistir de trabalhar, entrar em greve. Com isso, John Galt acelera o resultado final previsível para qualquer mundo comunista: o colapso. É muito interessante.

Bom, divagações a parte, o fato é que todo esse processo impacta os custos da produção e, consequentemente, os preços do mercado. Impacta, inclusive, o consumidor. Nas empresas, o aumento nas despesas direcionadas a este tema, sejam elas locais, multinacionais, frigoríficos, órgãos públicos ou empresas de serviços serão repassados nos preços e nas relações comerciais. Há uma pressão nas margens que impacta diretamente todo o mercado, dando força ao processo inflacionário. É até irônico que os defensores de agendas ambientais, sociais e politicamente convenientes sejam agentes causadores das dificuldades econômicas que o país enfrentará nos próximos anos.

Sem dúvida alguma, o assunto sustentabilidade é importante e atual. Na verdade, sempre foi. O que é desnecessário e irrelevante é que o debate seja conduzido com tamanho amadorismo.

Esses mesmos recursos destinados a responder o fruto do sensacionalismo poderiam ser direcionados para o aumento da sustentabilidade em si; não em devaneios filosóficos criados por gente despreparada.

Até o momento, entre os profissionais e cientistas sérios, só há um consenso em relação ao tema completo e complexo em torno da sustentabilidade: produtividade!! É aí que devia estar focado todo o esforço em prol da sustentabilidade. Não em explicar o ciclo da água ou a existência de pastagens que sequestram carbono na produção de carne.

O principal driver para o aumento da produtividade é o econômico, a busca pelo aumento do lucro. Por essa razão que sociedades capitalistas e livres são mais ricas e desenvolvidas, com segurança para a sociedade em geral, incluindo os mais humildes. Do outro, todos os países que optaram pelo cerceamento do lucro encontraram-se com o único destino possível: o colapso. Não há exceções no mundo.

A pecuária não foge à regra. O avanço tecnológico possibilitará grande retorno financeiro, conforme descrito na figura 1, que ilustra o lucro médio por hectare ano para as três principais atividades pecuárias em seis diferentes níveis de tecnologia.

 

Observe que o lucro é crescente em todas as atividades, com exceção da cria, por razões que vale a pena explicar.

Nos índices zootécnicos como fertilidade, natalidade, mortalidade, desmama, ganho de peso, etc, a cria responde economicamente igual às demais atividades. Quanto melhor o desempenho, melhor o resultado econômico.

O problema da redução dos resultados da cria se inicia quando a demanda tecnológica passa a exigir aumentos mais significativos em ocupação da área (animais ou unidades animais por hectare). Para simplificar, podemos dizer que para cada bezerro que for produzido a mais por hectare, será necessário aumentar um pouco mais de uma vaca na mesma área. E cada vaca pesa, em média, duas vezes mais do que um bezerro desmamado.

Portanto, a intensificação da taxa de lotação da cria encontra um ponto de inflexão na curva de resultados, a partir de onde o lucro, que vinha aumentando, começa a se reduzir. Esse ponto, em média, acontece por volta das 10 a 12@ /ha/ano de produtividade. Há 15 anos atrás, a inflexão ocorria por volta das 4 a 5@/ha/ano. Nas projeções preliminares para 2015, a inflexão está se deslocando para a faixa de 12 a 15@/ha/ano.

Ou seja, o ponto varia ao longo dos anos e vem confirmando a principal força que pressiona a tecnologia: a busca por resultados. A variável que altera o nível de tecnologia na cria é o preço do bezerro. Quanto mais alto for o preço do bezerro, maior é o espaço para aumentar a lotação. Isso se deve à dinâmica entre os custos médios e custos totais dentro das propriedades. Assunto para outro texto.

Voltando ao raciocínio, a pecuária vem desempenhando o seu papel e há anos registra redução nas áreas de pastagens através da incorporação de tecnologia. Essas áreas estão sendo repassadas para a produção de grãos, cana ou eucalipto ou sendo revegetadas naturalmente.

Os ecologistas não aceitam essa revegetação de áreas que foram pastagens, mas s dados do Terraclass/Inpe (acompanhamento por imagem de satélite) são conclusivos. Em 10 anos, apenas no Bioma Amazônia, foram recompostos 16,5 milhões de hectares de florestas. E outros 6,3 milhões estão estágio avançado de recomposição. Vale ressaltar que a recomposição não ocorre intencionalmente; ela resulta da ineficiência do produtor em controlar o avanço das invasoras ao longo dos anos. Isso ocorre por erros de manejo e pela escolha inadequada da estratégia de controle das invasoras.

Essa recomposição também não é considerada nos cálculos de desmatamento. Pelo contrário, pois quando os produtores suprimem novamente essa área recomposta, ela volta a ser contabilizada, duplicando a estatística. Portanto, na questão ambiental, o Brasil ainda precisa melhorar muito os critérios de análise dos dados.

O processo de degradação das pastagens também é mal interpretado. No Brasil, cerca de 45% a 50% das pastagens estão em degradação. Estar em degradação não significa que a área esteja degradada, mas sim que estão piorando ano a ano. Em estudo a campo, conduzido pela Agroconsult e Agrosatélite (Rally da Pecuária), identificamos que apenas 2% a 3% do total das pastagens estão degradadas. O resultado pode ser extrapolado com uma certa segurança. A amostragem nesse estudo é aleatória, distribuída em 10 estados que concentram mais de 80% da produção pecuária, e já soma três edições do projeto com resultados muito próximos.

Consideramos degradados aqueles pastos em que não se pode mais fazer nada. Será preciso o replantio de toda a área.

Outro dado interessante do Rally da Pecuária, complementado por imagem de satélite, é que 40% do processo de degradação ocorre pelo que se denomina degradação agronômica, ou seja, é a substituição da pastagem por plantas invasoras.

Plantas invasoras representam o estágio inicial da recomposição florestal. Caso o produtor não adote nenhuma medida para conter o avanço dessas invasoras, em poucos anos a área estará recomposta com a vegetação primária, podendo repetir o comportamento identificado nos resultados do Terraclass. De acordo com estimativas da Agroconsult, estariam nessas condições cerca de 28 milhões de hectares apenas nos biomas Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.

O resultado prático dessa mudança tecnológica pode ser contabilizado pelo efeito “poupa terra”, conceito que foi inicialmente analisado pelo engenheiro agrônomo Geraldo Martha Júnior, da Embrapa. Seguindo o mesmo raciocínio do pesquisador, a Agroconsult estimou que com a mesma produtividade de 1990, seriam necessários 419 milhões de hectares para produzir o mesmo volume de carne estimado atualmente.

Ou seja, se a tecnificação não tivesse ocorrido, o Brasil teria que ter desmatado outros 251 milhões de hectares para manter a atual produção de carne. Ou, analisando de outra forma, a produção seria significativamente menor e a carne bovina seria bem menos acessível ao consumidor.

 

A evolução da tecnologia não ocorre linearmente entre as atividades. Enquanto o ciclo completo representa a média da pecuária, a cria e a recria e engorda desenvolvem curvas diferentes no ritmo de tecnologia.

 

Quando os resultados médios da recria e engorda são analisados pelo mesmo nível de tecnologia da pecuária, que coincide com o do ciclo completo, a conclusão para os últimos anos é que houve prejuízo na atividade. A conclusão é correta, e confirma os dados da figura 2, apresentados anteriormente.

Essa observação levou muitos analistas a concluir equivocadamente que a recria e engorda havia sido deficitária em 2014. Quando os resultados são analisados de acordo com os níveis médios de produtividade, conclui-se que os resultados de todas as atividades melhoraram. Observe a figura 4.

 

Em 2014, o lucro médio da pecuária aumentou 76% na cria, 132% no ciclo completo e 73% na recria e engorda.

Evidentemente que cada fazenda tem a sua própria realidade. Análises trabalham com indicadores. E mesmo que os indicadores sejam originados a partir de realidades de diversas fazendas, não são suficientes para representar a realidade de todos os casos.

Na prática, são diversas as opções implementadas a campo que podem melhorar os resultados e desenhar uma relação diferente entre nível de tecnologia e resultado econômico. O inverso também é verdadeiro. A falta de rigor com a gestão ou com a condução dos projetos pode comprometer o resultado esperado.

Quando são apresentados as possibilidades e os resultados com a intensificação, principalmente em conferências, é comum que alguém questione a viabilidade destes níveis a campo. Ou que tais produtividades só seriam obtidas em casos especiais, nas fazendas que investiram muito recursos oriundo de outras atividades que não seja a pecuária.

É fato que a tecnificação demanda altos investimentos nas fazendas. No entanto, nada proibitivo que não possa ser feito ao longo dos anos. Se houver recursos de fora da fazenda, via investimentos, evidentemente que o processo se acelera antecipando os resultados.

Andando pelo campo e conversando com produtores, entrevistando ou recebendo questionários, em 2014 o Rally da Pecuária identificou cerca de15% dos produtores operando com mais de 18@/ha/ano no ciclo completo.

 

 A intensificação em estágios mais avançados já está no campo. Negar essa realidade apenas atrasará o embarque na tendência tecnológica. Esse atraso poderá se tornar um problema nos próximos anos, quando os preços não favorecerem mais a pecuária como agora.

Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, sócio e coordenador de pecuária da Agroconsult – mauricionogueira@agroconsult.com.br

Carolina Magnabosco Ribeiro é economista é analista da Agroconsult – carolina@agroconsult.com.br

Parte do artigo escrito para o 10º. Encontro sobre Confinamento, da Coan Consultoria