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O custo da ociosidade em um projeto de confinamento

Para analisar a questão da ociosidade, optamos por considerar um confinamento com capacidade estática de 3 mil cabeças. Analisaremos a situação apenas em que se compra os bois magros para engorda.

Ou, caso o confinamento seja estratégico para atender a demanda do próprio rebanho, o produtor consideraria o custo de oportunidade de entrada, ou seja, o preço que ele venderia esse animal no momento da entrada no confinamento.

O peso médio de entrada considerado é 370 kg/cabeça, ou 12,3@. Padronizamos o ganho de peso vivo em 1,5 kg/dia durante 100 dias de confinamento. Ao final, o boi com 520 kg de peso vivo marcaria 19,1@ de carcaça, com um rendimento de 55%.

A dieta, com proporção de 80% de concentrado e 20% de volumoso na matéria seca, foi orçada em R$0,51/kg de matéria seca. Nos cálculos consideramos o custo de R$0,53/kg estimando uma perda média de 3,9% nos ingredientes ou na dieta já formulada.

Em todos os casos analisados para identificar o custo da ociosidade, dieta e resultado técnico foram mantidos.

Nas estruturas e equipamentos, foram considerados investimentos totais de R$2,89 milhões, perfazendo R$ 964,00 por cabeça em capacidade estática.

 

Todo o dimensionamento de pessoal, salários e custos com manutenções e gerenciamento foram obtidos a partir de casos reais analisados nos últimos anos. Os valores de mercado foram todos atualizados para o início de 2015.

Investimentos em confinamentos mais sofisticados, envolvendo automação dos dados, irrigação de currais, tratamento de resíduos tendem a passar de R$1.200,00 por capacidade estática. Mesmo assim, independentemente do tamanho, o aumento dos custos com a ociosidade ocorrerá proporcionalmente à análise descrita adiante.

Ociosidade e os impactos no confinamento

A ociosidade no confinamento, assim como em qualquer atividade, compromete a rentabilidade pelo aumento dos custos fixos e indiretos, como depreciação e manutenção da estrutura, máquinas, equipamentos e veículos, funcionários e outros.

Esse aumento de custos ocorre pelo menor uso do capital imobilizado. Mesmo que a produção se reduza, alguns custos (fixos e indiretos) irão se manter, mas serão diluídos por um volume menor de produtos. Financeiramente ocorre o achatamento das margens.

O inverso, claro, é verdadeiro. Por isso que não se fala em redução de custos, mas sim diluição dos custos ou redução do custo médio (por unidade de produto). A produtividade por unidade de capital imobilizado é a melhor forma de maximizar a rentabilidade.

Para avaliar os custos da ociosidade, partimos de uma situação ótima, com ociosidade máxima de 15% no confinamento. Essa ociosidade, no entanto, é calculada para currais ocupados com carga máxima (100%) entre abril e novembro e meia carga (50%) entre dezembro e março.

Qualquer profissional que trabalha com confinamento sabe que manter esse nível de ociosidade não é fácil, especialmente num cenário de difícil originação de garrotes ou bois magros.

Nessas condições, o confinamento giraria 9,23 mil bois no ano, completando 3,08 giros por curral.

Calcula-se o giro dividindo o total de animais confinados pela capacidade estática.

A partir dessa situação, para avaliar e quantificar os impactos da ociosidade, simulamos todos os resultados reduzindo a ocupação de cinco em cinco pontos porcentuais.

Essa redução foi sendo simulada até atingir o breakeven, ponto em que o lucro fica igual ao custo de produção, zerando o resultado. Nessa análise, o breakeven ocorre quando a ociosidade chega a 66,2%, ou 1,23 giro sobre a capacidade estática.

É fundamental reforçar que a análise é válida para uma estrutura independente, montada apenas para o confinamento. Nos confinamentos com estruturas mais simples, que rateiam custos com as demais atividades, é possível obter lucro com giros até inferiores a 1,00 sobre a capacidade estática.  Na média dos confinamentos da pesquisa do Rally da Pecuária, o giro é de 1,4, considerado um bom índice para confinamentos estratégicos.

Voltando à simulação, consideramos os preços médios nacionais, por arroba do boi magro e do boi gordo, de acordo com a média ponderada do Brasil. A média ponderada é o indicador calculado pela Agroconsult, a partir da ponderação entre preços e volumes abatidos em cada estado.

 

Observe que os custos com as operações saem de 4,5% do total com 15% de ociosidade para 9,9% no breakeven. A participação no total dos gastos mais que dobra.

Custos da ociosidade 

 

Apesar do cenário desfavorável no preço boi magro, o confinamento ainda deve dar lucro em 2015. Mesmo assim, observe que na situação mais otimizada, com ociosidade de 15%, a margem de lucro líquido é de apenas 5,7%. No entanto, pelo efeito da escala de produção, a rentabilidade operacional sobre o capital investido é de 42%.

Nesse cálculo, desconsiderou-se o valor da terra no total investido. Se considerar o preço da terra de 200 hectares para produção dos volumosos, e implantação da estrutura do confinamento, a preços de R$15.000,00 por hectare, essa rentabilidade cai para 21%.

 O lucro por hectare e produtividade seriam, respectivamente, R$8.257,15 e 414 @ produzidas por hectare/ano. São índices altamente atrativos.

Optamos por desconsiderar o valor da terra na análise para que os empresários que possuem confinamentos estratégicos possam comparar os dados com a sua realidade. Nesses casos, geralmente, o valor da terra é analisado como um todo, com os resultados de toda a propriedade.

Portanto, administrando o risco e evitando o prejuízo, mesmo com margens apertadíssimas o confinamento de gado é uma atividade de alta rentabilidade, mas de alto risco. Por isso a importância em administrar estes riscos.

No mesmo gráfico, incluímos o ritmo de aumento nos custos da diária operacional para cada ponto porcentual de aumento na ociosidade.

Observe que no início, cada ponto porcentual de aumento na ociosidade representa um aumento de R$0,01/cabeça/dia no custo da diária operacional. Esse aumento vai subindo até chegar a R$0,06/cabeça/dia próximo ao breakeven.

Nessa análise, considerando a metodologia adotada e as condições atuais do mercado, podemos dizer que cada ponto porcentual representa um aumento de cerca de R$1,00 no custo final do boi no total das operações em confinamentos com maior número de giros. Em confinamento com menor quantidade de giros sobre a capacidade estática, cada ponto porcentual na ociosidade provocará um aumento de R$6,00 no custo final.

Parece pouco, mas em escala essa variável é o suficiente para zerar uma rentabilidade da ordem de 40% ao ano (sem considerar o valor da terra) entre os dois extremos analisados. E muitas vezes é um custo no qual o produtor dá pouca atenção.

 

A queda na produtividade reduz o lucro por boi confinado e, consequentemente, a rentabilidade final sobre o investimento. Essa redução está representada na figura 6.

 

A análise desconsiderou qualquer outra não conformidade na gestão dos confinamentos. Seja na dieta, na ineficiência comercial ou outros problemas previsíveis e administráveis, ou imprevisíveis e estimáveis, qualquer desvio em relação ao que foi planejado é o suficiente para levar a um cenário de lucros elevados ou prejuízos significativos.

O que pode ser feito para minimizar os riscos da ociosidade?    

Como já foi colocado, é difícil administrar um confinamento com taxa de ociosidade em torno de 15%. É preciso ser muito eficiente na compra do gado, na formação dos lotes, nas operações e na logística em geral. Toda a limpeza dos currais, manutenções de rotina e troca dos lotes precisam ser executados em apenas 21 dias em média, por curral, para cada intervalo entre os giros.

Como geralmente são 24 currais para uma estrutura para 3 mil cabeças, há necessidade de preparar 1,14 curral por dia, na média. E nos meses de chuva ainda é preciso considerar os dias de baixo rendimento ou impedimento nas operações.

Enfim, operar com 15% de ociosidade nos currais é possível, mas não é tarefa simples.

Na média, de acordo com as condições analisadas, a ociosidade provocaria um aumento de R$0,03/dia por animal no custo da diária para cada ponto porcentual de aumento.

Nos confinamentos menores, que rateiam parte dos bens de produção com as demais atividades, há uma maior flexibilidade na ociosidade. Nesses casos, geralmente o custo da ociosidade equivale diretamente aos custos de depreciações. Estes, por sua vez, representam apenas 1/3 dos custos da ociosidade, conforme representado na tabela 1.

Nessas condições, a ociosidade não implicará em risco financeiro, pois as depreciações não demandam desembolsos. O resultado econômico é menor, mas muitas vezes, a ociosidade planejada de maneira estratégica pode até melhorar o desempenho financeiro e a geração de caixa.

Nos confinamentos com estruturas quase, ou totalmente, independentes essa possibilidade não existe. O resultado, desde que tecnicamente e comercialmente bem gerido, aumentará exponencialmente de acordo com a agilidade em manter a lotação dos currais.

Mais uma vez, o inverso é verdadeiro. Se houver erros na condução técnica ou na comercialização, os prejuízos também serão multiplicados.

Além dos cuidados operacionais e logísticos, o produtor precisa ficar bem atento à sua escala. Os mesmos números divulgados nesse artigo precisam ser encontrados para cada fazenda. E precisam ser analisados periodicamente.

Assim como ocorre em todas as atividades, o confinamento passa por uma faixa de deseconomia de escada. Isso ocorre quando as estruturas usadas em outras atividades da fazenda não são suficientemente dimensionadas para atender o bom desempenho operacional do confinamento. Além de máquinas e equipamentos, o tempo dos funcionários também deve ser considerado.

Conhecer esses números é fundamental antes de investir na ampliação da estrutura de confinamento.

Uma alternativa viável, e recomendável, é que antes de ampliar, o pecuarista procure parceiros que confinem bois no sistema de boitel até que seu fluxo de produção seja suficientemente grande para comportar um confinamento com estrutura mais otimizada. Aos parceiros, seriam enviados o excesso de animais que não são comportados no confinamento próprio. Ou a totalidade destes animais, dependendo do resultado da análise.

Muitos pecuaristas podem considerar que o fato de já terem investido em cochos, silos, barracões, maquinários e equipamentos os obrigam a expandir o próprio confinamento para não perder o que foi investido. Embora faça sentido, é preciso muita cautela nessa decisão. Ela não é tão simples assim.

As estruturas de cocho não serão perdidas, embora partes do curral possam piorar com o tempo.  Mas o investimento em manutenção será mínimo lá na frente.

Equipamentos para mistura de rações ou apoio das fábricas menores podem ser utilizados em outras estratégias da fazenda como, por exemplo, a suplementação para melhorar o desempenho das pastagens. O resultado do aumento de produtividade aceleraria o processo de tecnificação.

A disponibilidade de capital para investir numa estrutura de alta tecnologia, que garanta bom desempenho zootécnico, certamente causará um desequilíbrio na escala, impactando os custos conforme a análise da ociosidade. Se houver recursos para complementar a lotação do curral com gado comprado no mercado, ótimo. Mas trata-se de um salto considerável em termos de investimentos.

Hoje um boi magro vale duas vezes mais do que o investimento por capacidade estática no confinamento. Fundamental levar isso em conta.

Por fim, nesse caso, o boitel pode ser uma opção temporária ou permanente, para aumentar o nível tecnológico da propriedade. Para facilitar a viabilidade do boitel, observe o aumento do custo da diária de confinamento, considerando todas as premissas detalhadas ao longo do texto.

 

Para comparar com a opção boitel, não basta apenas levantar os próprios custos orçados e comparar com o preço de mercado. É preciso considerar a garantia do desempenho zootécnico, dos desperdícios, imprevistos e todas as variáveis que podem comprometer o resultado.

Com a disponibilidade de recursos, e condições de girar um projeto em escala, evidentemente que é melhor conduzir o projeto dentro do próprio negócio, o que permitirá a apropriação das margens que seriam pagas aos parceiros. Mas é fundamental certificar-se de que os resultados técnicos são semelhantes, caso contrário a vantagem será ilusória.

Para quem está na atividade, com o confinamento operando com gado próprio ou comprado, além de todos os itens que demandam atenção, é fundamental planejar a comercialização usando estratégias de hedge para minimizar os riscos.

As margens líquidas baixas evidenciam o grau de risco nos projetos independentes de confinamentos.

Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, sócio e coordenador de pecuária da Agroconsult – mauricionogueira@agroconsult.com.br

Carolina Magnabosco Ribeiro é economista é analista da Agroconsult – carolina@agroconsult.com.br

Parte do artigo escrito para o 10º. Encontro sobre Confinamento, da Coan Consultoria