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O desafio de controlar os fornecedores indiretos

Dizer que a questão fundiária não interfere e não representa um desafio demonstra enorme desconhecimento sobre a realidade da produção

A pressão dos consumidores sobre as cadeias produtivas é crescente e cada vez mais rigorosa. Garantir a qualidade dos alimentos que chegam às mesas é uma tendência sem volta. Ou o setor produtivo se adapta ou perde espaço. As regras de produção dos alimentos serão determinadas pelo consumidor, esteja ou não o setor produtivo de acordo com as regras.  

Apesar de desnecessário lembrar, é melhor pecar pelo excesso. Além das características intrínsecas dos produtos, os atributos de sustentabilidade também compõem as dimensões da qualidade percebida pelo consumidor. Ética, conservação ambiental e boas condições para as pessoas envolvidas são exigências que não poderão ser negligenciadas.

Entre os profissionais envolvidos na produção pecuária, não há quem questione ou negue tal tendência. Colocações que parecem contradizer essa afirmação são justificadas pelo desconhecimento do tema ou pelo amadorismo. Não representa a parcela que movimenta todo o dinamismo da pecuária brasileira.

Apesar de consciente e comprometido, o setor produtivo é censurado ao tentar participar do debate. Acusado de inerte às tendências, qualquer profissional que tente contribuir com as soluções acaba sendo ignorado ou marginalizado das discussões. Seja da academia, de órgãos governamentais ou da iniciativa privada, para participar das soluções é preciso estar alinhado com a proposta do momento.

Essas propostas, no entanto, são elaboradas a partir de estudos conduzidos por pessoas que pouco conhecem do campo. A inexperiência em questões relacionadas à pecuária não consiste em demérito, visto que o conhecimento das ferramentas mais modernas que se envolverão cada vez mais nos processos de produção é dominado por profissionais de fora da área. Hardwares, softwares, modelagens, imagens de satélite, inteligência artificial, robótica, entre outros, são o futuro da rotina no campo.

O erro dos profissionais que conduzem tais estudos não advém da inexperiência, mas sim da negligência com o conhecimento acumulado sobre o tema. Entusiasmados com as possibilidades informatizadas, acabam por ignorar que o problema não está na gestão dos dados, mas sim na inexistência deles. Há anos temos insistido que é fundamental envolver o conhecimento acadêmico e de campo especializado em pecuária no desenho e nas discussões dos estudos relacionados. Se hoje existe algum dado para ser gerenciado é porque estes profissionais estão trabalhando há décadas na melhoria de uma atividade que até o final dos anos 1980 era conduzida sem nenhum aporte tecnológico ou gestão de informações.

O tema do momento é o controle dos fornecedores indiretos, ou seja, garantir que, do nascimento até o abate, o animal não tenha passado por nenhuma situação de inconformidade ambiental ou social. Trata-se do aumento das exigências acordadas pelas grandes indústrias em 2009, pressionadas por organizações ambientalistas e pelo Ministério Público Federal.

Com base nessa necessidade, diversos estudos e soluções estão sendo propostos por pesquisadores em parcerias com entidades ambientais. A participação do setor produtivo, quando muito, é limitada a algumas entrevistas para questionamento sobre os problemas existentes na cadeia de suprimento. Não há discussão dos métodos e dos dados utilizados; não há participação do setor na elaboração de soluções. Quando questionam ou sugerem, a resposta é sempre desqualificadora, associando o autor do questionamento à eventual alienação sobre a importância crescente do tema. Ou, para ficar no clichê da moda, o autor do questionamento é taxado de negacionista.

Pesquisas se misturam com soluções, como se a complexidade de uma atividade como a pecuária, que ainda ocupa mais de 160 milhões de hectares em praticamente todos os municípios do país, pudesse ser resolvida com um software de gestão de dados.

Por melhor que seja, não há um software, programa ou ferramenta analítica que seja capaz de gerenciar dados que não existem.

Mesmo assim, pesquisadores e organizações ambientais se entusiasmaram com a possibilidade de uso das GTAs para tal finalidade. A GTA (Guia de Trânsito Animal) é o documento emitido pelas secretarias estaduais autorizando a circulação dos animais. O principal objetivo da GTA é comprovar a qualidade sanitária dos animais em circulação, assim como sua procedência. Sendo assim, de fato, pelas GTAs é possível refazer os passos entre as propriedades que negociaram animais até que se chegue ao abate.

Essa possibilidade leva à falsa crença de que se trate de um instrumento que possibilita rastrear os animais controlando eventuais inconformidades na cadeia produtiva. É um engano. E esse engano é reforçado pela possibilidade, aí sim, de que a GTA permite o diagnóstico de um eventual problema no fluxo do rebanho.

Em outras palavras, por meio da GTA é possível identificar que há uma inconformidade ao longo da cadeia produtiva. Mas é impossível quantificá-la e, muito menos, gerenciar o fluxo de animais a partir dos produtores e frigoríficos.

Essa dificuldade, inclusive, é comprovada pelos próprios entusiastas do uso das GTAs no controle dos fornecedores indiretos. Em recente artigo publicado na Science pela equipe do professor Raoni Rajão, da UFMG, lê-se o seguinte trecho em tradução livre: “Como não é possível rastrear a contaminação de cada cabeça de gado, consideramos que as compras de uma determinada fazenda deve conter pelo menos 20% das cabeças de gado de áreas com desmatamento potencialmente ilegal” (1)

Em entrevistas divulgadas após a publicação do artigo, o autor defende ainda a tese de que a estrutura fundiária não consistiria em um problema para o controle dos indiretos, o que frequentemente é apontado pelos especialistas do setor.

Os pesquisadores e entidades ambientalistas parecem realmente acreditar que a estrutura fundiária não seja uma questão importante para o controle dos fornecedores indiretos. Em uma rápida pesquisa pelos estudos e propostas relacionadas ao controle dos fornecedores indiretos, não encontramos nenhuma avaliação sobre a realidade dos fornecedores de animais jovens que serão recriados e terminados em outras propriedades. Quando muito, há uma ou outra menção sobre a concentração fundiária. E esse nem é o maior problema.

A campo, as soluções apresentadas como factíveis colidirão com uma realidade difícil de lidar. O último Censo do IBGE, realizado em 2017, identificou 2,55 milhões de estabelecimentos com bovinos. O número de produtores é menor, visto que alguns possuem mais de 1 estabelecimento cadastrado. Embora seja possível chegar nessa informação, ela não é pública.

Sendo assim seguimos o raciocínio a partir dos estabelecimentos. Do total dos estabelecimentos pecuários, 76% registram menos de 50 cabeças e somam apenas 17% do total do rebanho brasileiro identificado no último censo. E ainda apenas 48% desses estabelecimentos relataram vendas de animais, o que nos permite dimensionar o nível de informalidade que caracteriza o mercado de bezerros no Brasil.

Assim, é possível concluir que, em média, cada fornecedor de bezerros vende 8,3 cabeças/ano. Quando se analisa as estatísticas de abate, seguindo o mesmo raciocínio, cada cadastro com registro de vendas movimentou 111 cabeças, em média. Apenas 8,8% dos cadastros registraram vendas de animais para abate em 2017, evidenciando o grau de concentração nas vendas de animais para abate.

Num cálculo grosseiro, é possível estimar que, na melhor das hipóteses, cada propriedade que abate animais teria que se relacionar com 13,4 produtores fornecedores de bezerros. Na prática, entre fornecedores e compradores, a relação será ainda pior visto que a grande maioria dos produtores que abatem se dedicam ao ciclo completo, produzindo os próprios animais e não buscando-os no mercado.

Produtores dedicados à recria e engorda ou apenas à engorda movimentam mais animais proporcionalmente. A dúvida é: quantos são e quanto movimentam? Independente da resposta, o problema piora significativamente.

E ainda será preciso considerar que o número de produtores com mais de um cadastro será maior na recria e engorda e no ciclo completo do que na cria. Identificando esse número, a quantidade de fornecedores para cada comprador será ainda maior do que o cálculo feito pelos cadastros.

E a dificuldade ainda está só começando. A tese de que as GTAs seriam suficientes para monitorar os fornecedores indiretos parte do pressuposto que os lotes continuariam juntos desde a chegada na propriedade até o embarque para o abate. Essa tese desconsidera totalmente a rotina das propriedades rurais e do próprio modelo de comercialização de animais através de leilões regionais. Os lotes são misturados e apartados diversas vezes, fazendo com que a relação entre um terminador e a quantidade de fornecedores aumente exponencialmente, visto que intermediários se envolverão na atividade. Na própria fazenda de terminação os lotes serão recompostos e apartados.

Enfim, não há quem negue a importância de rastrear os fornecedores indiretos. isso não está em debate, mas sim a viabilidade de que seja possível executar esse controle com as ferramentas disponíveis. Ao contrário dos fornecedores diretos, trata-se de um desafio que não será superado individualmente pela iniciativa privada, sejam frigoríficos ou produtores que terminam os animais.

Dizer que a questão fundiária não interfere e não representa um desafio demonstra enorme desconhecimento sobre a realidade da produção. Afirmar que uma ferramenta foi desenvolvida e que o controle dos indiretos depende de vontade da iniciativa privada é leviano e irresponsável pelas razões já descritas.

Pelo outro lado, por parte da indústria e dos representantes do agronegócio, é fundamental que se debrucem sobre todas essas questões antes que o setor se comprometa com uma entrega que não será possível. Além de colocar em risco uma estrutura de garantia sanitária que vem funcionando, qual será o prejuízo comercial de se prometer aos clientes algo que não será entregue? Como os investidores das empresas de capital aberto enxergarão essa frustração nas expectativas ora anunciadas?

Pelo lado de quem empunha bandeiras em nome da sustentabilidade, dada a realidade fundiária, e considerando a eventualidade de que a indústria chegue a uma solução nos próximos anos, qual é o custo social da exclusão que tais medidas representarão? E qual o custo ambiental da inevitável informalização que ocorrerá no mercado, antes que o processo de exclusão se complete?

Acreditando em promessas de leigos que dizem estar do lado da ciência em um debate travado contra o obscurantismo, há quem esteja disposto a correr enormes riscos de mercado, envolvendo a própria marca e a relação com clientes e investidores. Não seria mais barato estudar melhor o assunto e propor um plano factível, de longo prazo, envolvendo iniciativa privada, entidades ambientalistas e sociedade?

O desafio é grande, assim como a importância do tema. A forma com que o assunto está sendo tratado é desproporcional.

Por Maurício Palma Nogueira, engenheiro agrônomo e diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária

 

(1) Leia mais sobre o assunto no artigo “Exportações de carne bovina estão mesmo contaminadas pelo desmatamento?”, de 23/07/2020, disponível no site do Rally da Pecuária

 

Fonte da Notícia
Athenagro